4º Encontro Americano - XV Encontro Internacional do Campo Freudiano
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A clínica analítica hoje | O sintoma e o laço social
2009
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Judith Miller abre o debate do ENAPaOL
Judith Miller
 

Pouco antes de anunciar a intenção de promover um debate sobre o ENAPAOL, recebemos uma primeira contribuição de Judith Miller que corresponde à sua intervenção na Abertura do Colóquio "Psicanálise e sociedade", realizado em Paris em 31 de janeiro de 2009 como parte da preparação de PIPOL IV.

A mesma refere-se a seu ponto de vista sobre as conseqüências da interpretação de Jacques-Alain Miller nas Jornadas da Escola da Causa Freudiana, em outubro de 2008. É assim que nos apresenta, formalizadas em cinco pontos, as respostas que obteve na Assembléia Geral da AMP.

Com base nisso, Judith Miller conclui em dois eixos. Um admitido, a respeito das exposições apresentadas às quais serão produto do trabalho pessoal e não co-assinadas por um grupo. O outro, uma proposta audaz dirigida elucidar o significante "pragmática" em psicanálise.

As respostas obtidas na Assembléia Geral que antecedem a proposta, entendemos, explicam seus motivos.

É que por um lado não deveria haver, por definição, conflito entre psicanálise aplicada e pura, pois trata-se de duas formas de psicanálise. Conseqüentemente não se deve pensar que "agora somente vale a psicanálise pura".

Contudo: como ponderar que na tentativa de expansão da psicanálise aplicada se pudesse colocar em risco a psicanálise mesma?

É por isso que dentro da conjuntura de "agressão estrutural do discurso do mestre", a interpretação de J.-A. Miller leva a reconsiderar o fracasso de um êxito. Êxito para o mestre, fracasso para a psicanálise.

Fenômenos como identificações coletivas, marco de vaidades e ainda, a cegueira perante o perigo de ser engolido pela demanda do Outro social, não são mais que algumas de suas manifestações.

Como disse J.-A. Miller, seguindo a Nietzsche, existe o risco de nos "tornarmos aquilo que combatemos".[1]

Do mesmo modo, Judith Miller aposta enfaticamente que o Programa Internacional de Investigação em Psicanálise Aplicada possa velar pela orientação lacaniana, pois é evidente, pelo ocorrido, que parece não haver garantias em relação a novos "êxitos" no futuro.

Entende-se então que a proposta de Judith Miller iria exatamente revisar e tentar elucidar a chamada pragmática em psicanálise.

Proposta, entendemos, de grande importância –nas vésperas do ENAPaOL– para aqueles que hoje sustentam a psicanálise aplicada deste lado do oceano.

Sendo assim, decidimos que a mesma constitua o centro do debate rumo ao próximo Encontro Americano.

Um debate que urge, cremos, pois é evidente que o perigo de ser engolidos pela demanda do Outro social não cede, mas bem aumenta.

Eric Laurent nos diz: "Este mestre contemporâneo por intermédio das burocracias sanitárias propõe sonhos inéditos às populações as quais quer afetar em seu coração mesmo. Profilaxias da depressão na França e na Europa, construção de um sistema de distribuição de psicoterapias prescritivas para fazer os deprimidos voltar ao trabalho...".[2](trad. livre)

Supomos que um analista nunca se prestaria a isso.

Contudo, nos perguntamos: por acaso não existe o risco de responder por tais sonhos inéditos se se consegue como efeito terapêutico rápido reinserir em poucos encontros um sujeito (invalidado por seu sintoma segundo as psicoterapias prescritivas) no Outro social laboral sem que se analise previamente a qual classe de Outro se dirige?

Porque se trata-se do mestre contemporâneo, tal prática, por mais exitosa que seja, faria do analista uma espécie de agente direto do mestre.

Dito de outro modo: de que lado deveria estar uma pragmática em psicanálise? Do lado do laço social do mestre contemporâneo ou do lado do sintoma "invalidante"?

É evidente que num passado recente a psicanálise em extensão parecia garantida, e pelas melhores razões, pois era suposto sustentar-se no discurso que lhe é próprio.

E isso como disse J.-A. Miller, porque "Os efeitos psicanalíticos não dependem do enquadre, mas do discurso, ou seja da instalação de coordenadas simbólicas do lado de alguém que é analista e cuja qualidade de analista não depende do tempo de sua consulta, nem da natureza da clientela, mas bem da experiência na qual se comprometeu".[3] (trad. livre)

Contudo, hoje, o mesmo J.-A. Miller coloca, a quem queira ouvi-lo, que existe o risco de "…triturar a psicanálise sob o pretexto de expandi-la".[4]

Tentaremos então, com a proposta de Judith Miller dirigida rumo ao PIPOL IV, abrir um debate para aqueles que participem do ENAPaOL, a respeito da reconsideração de uma pragmática em psicanálise que possa dar provas de ter resistido tanto ao discurso do mestre como ao risco sempre latente de contribuir com seu reforço.

Fica aberto o debate e convidamos a quem o deseje a enviar-nos sua opinião.

Cecilia Gasbarro e Eduardo Benito

 
 
Notas
1- Miller, J.-A. Entrevista do momento atual 14. In: Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 61, Nov. de 2008.
2- Laurent, E. Informe moral apresentado perante a Assembléia Geral da AMP em 24 de janeiro de 2009.
3- Miller, J.-A. "Hacia PIPOL 4" Intervenção de J.-A. Miller nas Jornadas PIPOL 3, celebradas em Paris em 31 de junho e 1 de julho de 2007. In: El Caldero de la Escuela Nº7, 2008. pág.6.
4- Miller, J.-A. Entrevista do momento atual 11. In: Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 61, Nov. de 2008.
 
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