4º Encontro Americano - XV Encontro Internacional do Campo Freudiano
Español
 
A clínica analítica hoje | O sintoma e o laço social
2009
Organização | Argumento e eixo | Programa | Inscrição | Noites | Trabalhos | Carteles | Leituras online | Contato
 
Leituras online | Debate
Intervenção de Judith Miller no Colóquio "Psicanálise e Sociedade"
Judith Miller
 

Apresento-lhes o mais sucintamente possível este colóquio e seus quatro tempos. Busquei tornar explícito de que modo ele prepara o Encontro europeu na atualidade do Campo Freudiano, a partir das conseqüências da interpretação realizada por Jacques-Alain Miller nas Jornadas da Ecole de la Cause freudienne, em outubro passado – referida a um "excesso de libido" investido na psicanálise aplicada.

Esta interpretação e suas consequências concernem ao conjunto das escolas do Campo Freudiano que a AMP reúne, assim como a própria AMP. Ela concerne igualmente o Encontro europeu e o conjunto do Campo Freudiano, incluindo-se o RIPA.

Vou tentar dizer quais são, a meus olhos, estas conseqüências. Digo "tentar", mas seria melhor dizer "arriscar". O que vou dizer hoje, empenha apenas a mim. De fato, a comissão do PIPOL IV, como tal, ainda não as examinou.

Como esta me concernia profundamente, formulei meu embaraço na AG da AMP, no sábado passado, minha última bússola possível antes deste colóquio. Raramente me senti tão "no ponto" para falar.

Com efeito, minha posição é a do patinho feio entre os analistas, por ela reunidos. Alguns não perdem a ocasião de me lembrar isso – e eu sou a primeira. Como não-praticante, punha meu dedo na ferida, como podem aqueles que Lacan acolheu em sua Escola e com os quais suponho hoje partilhar a condição de "parrésia", tal como Michel Foucault a destacou no início dos anos oitenta. Nem delírio de presunção de ex-combatente, nem lei do coração me animam, mas sim um desejo de "trabalhador decidido".

Nesta condição recebi as respostas a mim dadas sábado passados e que tentarei recapitular em cinco pontos.

1. A interpretação de Jacques Alain Miller não incide sobre aquilo que alguns entenderam como "um conflito entre psicanálise pura e aplicada". Jacques-Alain Miller, tal como a maioria de nós, nunca deixou de se referir – e não deixou de demonstrá-lo – ao Ato de fundação por Lacan em 1964 e a seus textos sobre o passe. As Escolas da AMP continuam a se reconhecer a partir dele.

2. A conjuntura permanece a da agressão, estrutural eu diria, do discurso do mestre com relação ao discurso do analista. A interpretação de Jacques-Alain Miller incide sobre o ratear [ratage] de um sucesso (especialmente o do CPCT-Chabrol, cuja experiência, de realidade efetiva (por longo tempo diferida), exige que se reequilibre a articulação entre a psicanálise pura e a aplicada – nas Escolas em primeiro lugar. Ela convida ao retorno a Lacan, não somente ao passe, mas à análise para cada um em sua relação com o inconsciente (o seu próprio) e à causa analítica.

3. Todos os "lugares alfa" (e nem todos são CPCTs) estão ameaçados pelo efeito de identificação coletiva, massificadora, percebido como tal por Freud. Este efeito de grupo, longe de conduzir a analisar a experiência do CPCT (que se multiplicou e é paradigmático dos lugares alfa) dele fez a glória. Isso, sem que se percebesse que ao responder à demanda do Outro corria-se o risco de ver o discurso do analista deteriorado.

4. Este efeito de grupo é, por definição, cego para o fato de que ofereça-se e abandone-se o discurso analítico aos apetites do discurso do mestre, abrindo a porta a que ele seja tragado pelas demandas do Outro social. Donde a justeza do título deste colóquio "Psicanálise e Sociedade" que eu, em uma primeira abordagem, tinha achado banal.

5. Esta justeza foi confirmada pela resposta de Eric Laurent, em forma de "tirada" à minha pergunta sobre o quanto há de psicanálise aplicada à terapêutica na prática privada de um analista: "o consultório do analista é um lugar público". Um analista, como todos nós, está a minima inserido no discurso do mestre e a ele está submetido (impostos, seguros, etc.).

Reduzo, para PIPOL IV, hoje, a dois as orientações que deduzo destes itens.

Uma já está admitida e será posta em prática. Foi decidido – desde dezembro para a parte americana do Encontro Internacional do Campo Freudiano e desde domingo passado para sua parte européia – que as comunicações apresentadas serão o produto de trabalhos pessoais e não co-assinados por um grupo, mesmo que seja ele um lugar alfa. Para enfatizar o que há de analítico no efeito produzido por um praticante que diz orientar-se pela psicanálise.

Proponho a outra: elucidar este novo significante, a "pragmática", na psicanálise. Ele me parece declinar as maneiras pelas quais pode ser apreendida, em sua contingência, uma oportunidade de resistir ao discurso do mestre a partir do discurso do analista. De afirmar sua singularidade e de resistir às agressões e devastações que elas induzem, obstruindo todo o espaço onde um sujeito possa advir.

Difícil, decerto, esta elucidação – que deve ser entendida como uma formalização e não como uma definição – não é impossível.

Restam-me 250 caracteres, seguindo-se o esquema proposto por Jacques-Alain Miller para este colóquio, ao qual ateve-se a Comissão. Tomo o mínimo espaço para dizer a vocês a composição desta Commission - Hugo Freda, Fabien Grasser, Philippe La sagna, Jean Daniel Matet, Nadine Page e eu própria – e para passar a palavra a Bernard Seynhaeve, analista da Escola (no sentido objetivo e subjetivo deste genitivo) e diretor do Courtil. Nisso está "aquilo que poderia aparentemente ser uma dificuldade" em seu título. Ele encarna a relação, na lógica das proposições, da disjunção conjuntiva. Agradeço-o por estar aqui in presencia. Sua presença engajada diz respeito, para mim, à ética que "prática de uma teoria" enlaça as duas vertentes da psicanálise, em intensão e em extensão. Nisso bate o coração da aposta engajada pelo Programa Internacional de Pesquisa em Psicanálise Aplicada, na medida em que ele se sustenta – e ouso dizer que ela pode por ele ativamente velar - na Orientação Lacaniana.

 
Kilak | Diseño & Web