4º Encontro Americano - XV Encontro Internacional do Campo Freudiano
Español
 
A clínica analítica hoje | O sintoma e o laço social
2009
Organização | Argumento e eixo | Programa | Inscrição | Noites | Trabalhos | Carteles | Leituras online | Contato
 
Leituras online | Pos-Encuentro
Como fazer escutar o sintoma na instituição? [*]
Romildo do Rêgo Barros - EBP
 

Eu queria agradecer à coordenação do Encontro, em particular a Guillermo Belaga, pelo convite para participar desta plenária, e por me proporem uma pergunta. Não exatamente para ser respondida, me pareceu, mas comentada: "como fazer escutar o sintoma na instituição?"

Trata-se de uma pergunta muito ampla, que pode ter mais de um sentido e poderia em princípio ser feita em qualquer época da história da psicanálise. Ou, pelo menos, desde que o termo "escuta" passou a ser usado como um quase equivalente do ofício do psicanalista.

Se atentarmos bem, veremos que a duplicidade de verbos que há na pergunta, fazer escutar, indica de saída uma posição mista, que sem dúvida caracteriza o psicanalista nas instituições nas quais trabalha. O verbo fazer, nessa pergunta, não funciona como um verbo auxiliar, que teria por função completar o sentido do verbo escutar, como ocorre com certos usos dos verbos ter e ser – eu terei dito, por exemplo -, mas, pelo contrário, traz algo de fora: fazer escutar aponta para dois sujeitos verbais: aquele que faz escutar não é o mesmo que deve escutar, e este talvez não escutasse sem a pressão do primeiro: sem o psicanalista, o sintoma, ou seja, aquilo que escapa à completude da instituição, ou que excede à sua definição legal, não seria escutado, ou não seria escutado da mesma maneira e com as mesmas consequências.

"Como fazer escutar o sintoma na instituição?" é, portanto, uma pergunta que equivale a "qual a função e papel do psicanalista na instituição?". Ou ainda, "de onde deve ele escutar e fazer escutar?".

Classicamente, poderíamos responder, e não estaríamos inteiramente errados, que a primeira coisa para fazer escutar o sintoma na instituição é fazer com que se mantenha de alguma forma uma exterioridade, capaz de permitir, segundo o cálculo de Freud, a introdução de um novo sintoma paradoxal, que ao mesmo tempo atraia a defesa do sujeito e o leve a falar.

Não faltariam exemplos bem sucedidos no campo institucional, apesar de que, até onde sei e pelo menos no Brasil, só raramente os psicanalistas são empregados como psicanalistas. Temos décadas de experiência de atuação em hospitais, escolas, ambulatórios, e de tentativas de implantação do discurso analítico em dispositivos institucionais, públicos e privados, todos a princípio estranhos ao seu lugar de origem. Essas experiências vão desde a simples instalação de consultórios no interior da instituição, quase como um enclave, até a disposição de analisar a própria instituição, que se inicia pela oferta do próprio psicanalista como sintoma institucional.

II
Mas algo vem acontecendo de uns anos para cá, em parte por força das mutações na civilização, e em parte, sem dúvida, como efeito da própria difusão da psicanálise.

Vou tomar como guias duas importantes escansões produzidas na nossa comunidade ao longo dessa transformação: o artigo O analista cidadão, publicado por Éric Laurent em 1996[1], e uma frase bastante forte pronunciada por Jacques-Alain Miller alguns anos depois, em 2003: "a escuta se converteu em um fator da política e em uma aposta de civilização"[2]. Do artigo de Laurent extraí a expressão paradoxal "dizer silencioso", que "implica tomar partido, silenciar a dinâmica de grupo que rodeia toda organização social"[3]. A frase de Miller, extraída do seu artigo Da utilidade social da escuta, foiescrita em um momento político bem especial, em que os psicanalistas tiveram que se haver com tarefas que ultrapassam as paredes das suas instituições e dos seus consultórios, e representa uma virada importante nas relações entre psicanalista e instituição, comparável – a supor que essas coisas sejam verdadeiramente comparáveis - à virada que a Conversação de Arcachon representou na nossa clínica.

Éric Laurent, ainda no texto sobre o analista cidadão, constata: "quando não há mais ideais, resta apenas o debate democrático"[4]: o debate democrático, sucedâneo de uma moral universal que não há, é a única prática capaz de garantir a dignidade, não dos ideais, mas daquilo que não é calculável e que acompanha como uma sombra as "boas notícias do progresso", segundo a expressão que serviu de título a um outro importante texto de Jacques-Alain Miller[5], que explica as transformações ocorridas no modo de formação dos coletivos, desde aqueles caracterizados pela função do líder, que Freud teorizou em 1921, até os atuais, que são determinados pela hegemonia de um saber anônimo. Ou, poderíamos dizer em outros termos, desde a predominância de um Outro, sob a forma, por exemplo, de um ideal terapêutico ou pedagógico, até a prevalência do desempenho quantificável universal.

Nesta minha intervenção, a instituição tem um sentido bem limitado, já que a definimos de saída como um lugar onde trabalham psicanalistas. Estão excluídas, portanto, as acepções mais gerais, como, por exemplo, a instituição como um ato que implica alguma forma de ficção, de vontade ou uma convenção.

Max Weber definiu a instituição, de maneira bem simples, como

"uma associação cuja ordem estatuída se impõe, com (relativa) eficácia – o adjetivo "relativa" está entre parênteses -, a toda ação com determinadas características que tenha lugar dentro de um determinado âmbito de vigência"[6].

Penso que o sintoma está dissimulado no adjetivo "relativa", que representa na definição weberiana tudo o que escapa ou faz vacilar a eficácia. A posição do psicanalista é nesse sentido igualmente relativa, no sentido de que excede ao que se espera de uma profissão. Uma profissão tem limites e prerrogativas previstos em lei, têm normalmente uma longa duração, e deveres e direitos garantidos. Uma profissão é de certa forma o complemento da instituição.

A escuta, na verdade, também se transformou, desde a época em que o analista se pretendia marginal, segundo a expressão de Laurent, até a época de hoje, em que combate por valores que vão além da psicanálise. Trata-se de uma nova escuta. A mesma pergunta que estou comentando, como fazer escutar o sintoma nas instituições?, com sua aparência de perenidade, se fosse feita há alguns anos atrás, teria uma resposta diferente, por causa da mudança, desde então, do lugar do psicanalista e do próprio significado do termo escuta, que não é intemporal.

O analista de hoje é aquele que, como sempre fez, dispõe-se à escuta, mas sabendo que a escuta já não está em contraste com o discurso dominante mas, pelo contrário, passou a ser uma das suas exigências. Manter sua disposição à escuta não quer dizer que o analista se converteu às ilusões do saber, mas que combate pela singularidade, que se situa do lado do que Miller chamava, no seu curso do ano passado, de "coisas de fineza". A nova escuta, que excede o calculável, se volta para as coisas de fineza.

Que particularidade haverá então nessa nova escuta analítica?

No dizer de Jacques-Alain Miller, na sua crítica à quantificação e avaliação generalizada, o saber "mostra-se com capacidade de dominar o que antes lhe escapava. Esses progressos se situam todos no eixo S2 ® a". A cada dia recebemos as boas novas do progresso, cujo avanço parece ser infinito, mas algo nos separa do otimismo que existiu em outros tempos: é que o progresso do saber é hoje acompanhado por estranhos efeitos de objeto, e estes são perfeitamente visíveis.

Ligadas a esse fenômeno, explica-nos Miller, estão novas formações coletivas, que já não se definem a partir da referência ao líder, mas ao saber: "tenta-se obter a subjetivação do coletivo unicamente por meio do saber, e por meio de um saber homogêneo. A função do mais Um ou do menos Um é inteiramente impensável nesse caso"[7].

A pergunta inicial, que parecia simples, complica-se, desde que um dos seus termos centrais, a escuta, muda de valor e passa ela própria a se constituir em sinal dos tempos, ou em sintoma. Fazer escutar, em consequência, muda de peso relativo, uma vez que o verbo fazer, que a rigor não supunha nenhuma ação, torna-se ativo. Fazer escutar passa a significar uma ação, necessária a que algo, um sintoma, seja escutado na instituição.

O que chamei antes de posição mista do psicanalista encerra algo do que Lacan, comparando o psicanalista com Sócrates, chamou de atopia, falta de lugar. A atopia, que situava quase naturalmente o psicanalista como intérprete em face do discurso do mestre, não tem o mesmo sentido em uma época de alastramento do S2 como "saber homogêneo" e anônimo.

III
Um sociólogo francês, Marc Augé, publicou um livro chamado Os não-lugares, que trata dos espaços onde ninguém fica, só passa. Por exemplo: as auto-estradas, as inúmeras salas de espera – incluindo-se sem dúvida as dos analistas -, os supermercados, os aeroportos. O cinema americano já usou essa situação em um filme protagonizado por Tom Hanks, em que o personagem, por razões burocráticas, fica detido em um aeroporto, que se passa a ser um lugar de permanência, o que provoca estranheza: como é possível fazer de um lugar que, nos termos de Marc Augé, não produz identidade e nem laço, um lugar permanente?

O termo "instituição" está tradicionalmente associado a alguma forma de estabilidade: na sua composição, representada pelos seus objetivos e sua hierarquia, ou no tempo, sob a forma da duração, como acontece naquelas empresas que acrescentam aos seus nomes o ano de fundação, sobretudo quando ultrapassaram de muito a duração média de uma vida humana. Se uma instituição é muito antiga, pensamos, é porque é sólida e merece portanto nossa confiança, porque terá sabido atravessar crises que poderiam tê-la destruído. As instituições, como dizem várias definições jurídicas ou sociológicas, são feitas para durar. O seu tempo é o do longo prazo, a sua dimensão é a da diacronia. Contrariamente a essas instituições, o ato analítico representa aquilo que não dura, a centelha, o súbito salto do leão como dizia Freud, o que em princípio não será nunca comparado à regularidade dos ciclos naturais ou às funções do corpo. Esta diferença temporal constitui o paradoxo que é inerente à função do psicanalista.

Mas, o que pensar das instituições que não são feitas para durar, para as quais a longa duração não é um aspecto decisivo para que existam ou funcionem? Ou daquelas que sofreram uma tal modificação que somente podemos falar delas no plural: a família, por exemplo, que se distancia cada vez da coincidência, apontada por Lacan em 1938, entre as funções sociais e as funções biológicas da geração, ao mesmo tempo em que parece reforçar-se como instituição? O que dizer, finalmente, daquelas, cada dia mais frequentes, cujo funcionamento coletivo se dá exclusivamente através de computadores?

Para essas instituições, aplica-se atualmente um adjetivo que se tornou de utilidade quase universal: virtual, que qualifica comportamentos, desejos ou hábitos que eram dependentes de um certo enquadramento que já não é mais necessário: um endereço, os muros, ou o encontro direto dos corpos.

Virtual não quer dizer o que só existe na imaginação. Como a própria etimologia indica, há no virtual uma força, uma potência, que pode levá-lo a produzir efeitos no real. Quando dizemos, por exemplo, que compramos algo em um shopping virtual, estamos nos referindo à compra de objetos concretos que nos vão ser entregues, embora o shopping virtual não ocupe nenhum espaço físico onde pudéssemos, por exemplo, olhar as vitrines. Da mesma forma, o sexo virtual não se limita a uma cena mental, como ocorre nas fantasias masturbatórias, mas se dá entre sujeitos que se escrevem, muitas vezes se vêem, se falam e se mostram, mas não poderiam se tocar. O mesmo se pode dizer das comunidades virtuais, que reúnem sujeitos que compartilham um certo traço, um interesse ou uma crença comum, mesmo que vivam a uma grande distância e nunca se encontrem. Aliás, nos casos de amor virtual, um encontro direto é às vezes decepcionante.

São instituições em geral precárias, tanto no que refere ao espaço quanto ao tempo. Não ocupam espaço físico e não têm necessariamente que durar, além de nem sempre contarem hoje com os mesmos participantes de ontem : algumas são tão efêmeras quanto a tarde de que falava em um belo soneto um poeta pernambucano: "essa tarde durou uma açucena".

O analista, cuja sincronia opera como corte na diacronia das instituições, se vê agora às voltas com uma sincronia própria da cultura, onde os acontecimentos e organizações podem não ser duradouros, e não sólidos mas líquidos, segundo a expressão de Zygmunt Bauman que Miller adaptou à psicanálise.

Para terminar: às vezes me pergunto onde estaríamos se Lacan não nos tivesse ensinado uma outra lógica do tempo além da mera duração?

 
 
Notas
* Plenária no Encontro Americano do Campo Freudiano, Buenos Aires, 28/11/2009.
1- Laurent, É.: "O analista cidadão", em A sociedade do sintoma – a psicanálise, hoje, Contra capa, Rio de Janeiro, 2007, p. 141: "os analistas precisam entender que há comunhão de interesses entre o discurso analítico e democracia, e precisam entendê-lo verdadeiramente! Há que se passar do analista reservado, crítico, a um analista que participa, a um analista sensível às formas de segregação, a um analista capaz de entender qual foi sua função e qual lhe corresponde agora".
2- Miller, J.-A.: "De l’utilité sociale de l’écoute", Lettre Mensuelle n° 233, dezembro de 2003.
3- Laurent, É.: op. cit., p. 143.
4- Laurent, É.: op. cit., p. 146.
5- Miller, J.-A.: "Les bonnes nouvelles du progrès", Ornicar? Digital 266, 2004.
6- Max Weber, Economia e sociedade, Editora UNB, Brasília, 2000, Volume 1, p. 32.
7- Miller, J.-A.: "Les bonnes nouvelles du progrès".
 
Kilak | Diseño & Web