4º Encontro Americano - XV Encontro Internacional do Campo Freudiano
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A clínica analítica hoje | O sintoma e o laço social
2009
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Delicadeza [*]
Judith Miller
 

"É que há uma verdade nova, não é possível contentar-se com dar-lhe seu lugar,
pois do que se trata é de tomar nosso lugar nela. Ela exige que a gente se tome a moléstia
Jacques Lacan, « A instância da letra no inconsciente » Escritos 1, p. 206

«Há que adentrar-se no campo social, no campo institucional, e preparar-nos para a mutação da forma da psicanálise. Sua verdade eterna, seu real trans-histórico não serão modificados por esta mutação. Pelo contrário, se salvarão, se captarmos a lógica dos tempos modernos
Jacques-Alain Miller, Le Neveu de Lacan, p. 124

A passagem ao século XXI, o 150º aniversário do nascimento de Freud e o centenário de Lacan conduziram àqueles que inscrevem seu trabalho no Campo Freudiano a interrogar cada vez mais o lugar da psicanálise no mundo, assim como a função que lhe cabe a um analista. O mundo muda e este lugar é em efeito questionado no próprio país em que Lacan exerceu e ensinou. É dizer, no país onde não só a lâmina cortante da invenção freudiana foi salvaguardada por Lacan, como também onde a doutrina analítica conheceu avanços tão notórios que só hoje começamos a ter uma medida das conseqüências do último ensino de Lacan, tanto no que diz respeito ao Édipo como aos sintomas, para tomar apenas dois exemplos entre muitos outros.

Seguramente as mudanças do mundo, e com eles as da clínica, exigem interrogar o lugar que tem ali a psicanálise e a função que lhe cabe a um analista, sabendo que desde o nascimento da psicanálise este lugar deve ser defendido e esta função delicada sustentar-se. Hoje, o são sem dúvida mais do que nunca. Através das mudanças, poucas coisas da era vitoriana que possamos encontrar no mundo globalizado, resistiram, onde o próprio se caracteriza pela ruptura que opera com os ideais e valores tradicionais, da família especialmente, e uma pletora correlativa a uns mais de gozar, descartáveis, falsos objetos a, que se oferecem ao consumo público no lugar dos ideais que se tornaram obsoletos. Não posso mais que os remeter ao site da ELP a esse respeito, que publica os trabalhos de nossos colegas elucidando o "estado da civilização" de maneira metódica e rigorosa e suas repercussões sobre a "questão psi".

No entanto Lacan não deixou de confiar em uma <conferência de imprensa> de 1974, no momento de "A terceira" (intervenção sua em Roma), que a seus olhos a religião (a verdadeira, quer dizer a romana) teria todo o necessário para triunfar mais além das convulsões que o planeta haveria de conhecer e as vicissitudes da civilização. (Um parêntesis aqui: para quando o ensaio de um psicanalista consagrado ao movimento ecologista que se inquieta pelos estragos destrutivos que ameaçam a Terra e os equilíbrios naturais de sua fauna e seus climas?).

Em 1974, Lacan, no entanto não convida a psicanálise a propor outro sentido diferente que o da religião encontra sempre para fazê-lo abundar e melhor mascarar o real: todo sentido é religioso. Ele indica a bússola que especifica a psicanálise: orientar-se pelo real que se desprende efetivamente da psicanálise: o que fracassa, o insuportável que insiste. Tal é sua singularidade e sua razão de ser, a falta da qual estaria destinada a deteriorar-se. Tratar-se-ia de condená-lo a uma triste alternativa: o fracasso ou a traição?

Como pode a psicanálise encontrar seu lugar no século XXI sem trair-se ou sem auto segregar-se? Seguramente, a via que supõe que ela logre circunscrever sempre o real e obter, pelo mesmo movimento, um saber fazer em seu lugar, é estreita. O impossível não é a impotência. A ética da psicanálise é o que supera qualquer traição e franqueia todos os obstáculos caso se sustente firme no princípio enunciado por Lacan: "não ceder sobre seu desejo". Se a posta em marcha por cada um de tal princípio supõe que a cura do sujeito tenha sido conduzida ao seu término, será que ela habita em todo analisante que se aferra à ocasião de servir à causa da psicanálise autorizando-se a ser um praticante devidamente formado?

O porvir da psicanálise se sustenta seguramente na formação dos analistas. Nada surpreendente nem é novo dizê-lo, o que é surpreendente e novo é a conjuntura na qual este dizer encontra sua efetividade. Neste século, a conferência institucional da ECF de 13 de setembro de 2008 se dá como tarefa começar a encarar essa conjuntura para desbravar o terreno, inclusive extrair as minas...

Não lhe cabe à psicanálise passar por compromissos para existir no mundo, especialmente do tipo promoção ou aceitação de diplomas: está em sua essência mesma não ser passível de diplomas. Seu exercício implica que permaneça confidencial, o inconsciente freudiano se constitui em uma relação de palavra de ordem privada.

Pelo contrário concerne à psicanálise salvaguardar o espaço desta ordem quando tudo (a ideologia de segurança, a tecnologia Internet, a política da transparência, a tecno-psi [1] etc.) trabalha para sua diminuição e para fazer esquecer a cada um sua solidão, sua responsabilidade, inclusive suas cogitações de ser falante. Na França, mobiliza aos cidadãos lúcidos, um projeto de decreto governamental que põe em cheque, em nome de sua segurança, as liberdades individuais. Tais decretos estão no ar de nossos tempos em nome da "transparência" e do traçado previsível que a lei do mercado promoveu e que a globalização pretende aplicar às pessoas, a condição de não ver nelas mais do que consumidores-produtores.

É por isso que iniciativas tais como os Fórum psi e Le Nouvel Âne se inscrevem na trama do ensino de Lacan no momento particular da civilização que vivemos. Logo após do Seminário XVII, fomos esclarecidos sobre o "avesso" da psicanálise: este termo indica que o discurso do mestre e do analista são feitos da mesma estofa, do mesmo tecido [2]. Certamente se opõem, um massifica enquanto o outro permite a cada sujeito, um por um, ler o inconsciente do que são o produto. Esta oposição diz sobre a estreita relação, desde sua invenção por Freud, entre a prática da psicanálise e sua época. A diferença do discurso da histérica que, perseguindo a verdade, desnuda o semblante sem poder fazer outra coisa que reforçá-lo, o discurso analítico, não denuncia os semblantes, mas sabe servir-se deles sem enredar-se ali.

Corresponde, não obstante, à psicanálise determinar o que é transmissível da experiência analítica e prosseguir a elaboração, inaugurada por Freud e cristalizada nos seus matemas, por Lacan. Daí o tato requerido na exposição pública desta experiência privada. O testemunho do passe não sai do círculo restrito ao qual se endereça, a publicação oral ou escrita de um caso e sua discussão respondem a exigências com as quais se medem as apostas da inscrição da psicanálise no mundo tal como ele vai. Um amplo leque contribui a esta inscrição e vai desde os ensinos dos AE até as intervenções públicas que se fazem oralmente, seja no papel ou no que se faz impossível de desconhecer: os sites da web.

Se não compete à psicanálise alimentar nem a nostalgia dos ideais antigos nem a queixa sobre a dureza do mundo tal como é, lhe compete colocar seus relógios em tempo. Primeiramente, examinando em que contribuiu; se não é por acaso à ascensão ao zênite do objeto a, à queda dos ideais, em que seus próprios êxitos deram pretexto aos ataques daqueles que quiseram assassiná-la. Logo esvaziando os argumentos inconsistentes em nome dos quais o cientificismo pretende que ela esteja morta e enterrada. Finalmente explicitando as condições nas quais um analista pode sustentar sua função, sem renunciar a seu laicismo. Como sabemos, não há psicanálise sem psicanalistas e não há psicanalistas sem formação analítica e verificação desta formação que somente uma Escola de psicanálise pode assegurar. No primeiro degrau destes meios se encontra o dispositivo do passe, mas também o controle, a conversação clínica, os ensinos abertos, o debate de doutrina e a "censura crítica" [3]. Não faz falta menos que isso para que uma Escola de psicanálise cumpra suas finalidades de tal maneira que "não se poupará nada para que (os que ali virão) todo o valioso que façam chegue a ter a repercussão que merece, e no lugar conveniente". [4]

Privilegio este ponto na medida em que percebo melhor a amplitude das exigências às quais responde sua Escola segundo o desejo de Lacan. Hoje em efeito compartilhamos certo entusiasmo pela iniciativa inusitada do CPCT, tomada dos conselhos reiterados de Jacques-Alain Miller à Escola da Causa freudiana. Teve grande êxito na França e em todas as Escolas da AMP. Há seguramente ali uma prova de que um analista formado na psicanálise de orientação lacaniana pode desfazer-se dos significantes mestres que o conduziram a Freud e distinguir ouro de cobre. Verifica-se que a prática analítica não depende de um enquadre senão de um discurso e que ela pode, nas instituições, inclusive nos CPCT, não descuidar em nada o rigor da prática de consultório, a partir do momento em que um psicanalista por sua formação se orienta no objeto mais de gozar.

A audácia desta inovação que as escolas da AMP assumem seguramente se sustenta na força que o rigor da formação assegura. Verificam-se os efeitos da psicanálise pura na psicanálise aplicada. Coloca-se então a questão dos efeitos de retorno do segundo sobre o primeiro. Não poderiam ser de obliteração. Concernem a cada instância que se faz responsável da psicanálise, às comissões científicas desde o menor evento até aquelas propostas para acolher alguém novo – membro ou participante – na comunidade de trabalho do Campo Freudiano, e nas Escolas em primeiro lugar.

A preocupação do discurso do analista não poderia colocar entre parêntesis esta dimensão, precisamente pelo fato de que a clínica e a política não são dissociáveis: o mito da a-topia da psicanálise cai por terra, se esta a-topia consiste em assegurar sua retirada dos assuntos do mundo. É inquestionável que a tomada de posição de um analista não é estritamente dedutível da posição do analista, a qual é fundamentalmente estrangeira às questões de adaptação à marcha do mundo e está advertido da dimensão do fracasso de muitos êxitos, no entanto, não pode descuidar desta marcha do mundo se ela conduz diretamente – de maneira homicida ou serenamente - a apagar do mapa as condições mesmas do exercício da psicanálise. Seu laissez-faire seria impostura, um analista não pode sustentar-se de sua retirada da marcha do mundo como o demonstra a história do movimento analítico. Ela demonstra também que a psicanálise pode trabalhar para a sua própria desaparição a falta de uma rigorosa vigilância que não evite examinar as implicações de seu sucesso. Hoje um analista é necessariamente um resistente a uma mutação das entidades clínicas que tendem a regular-se somente pelas novidades farmacêuticas de produtos chamados medicamentos (seu nome grego antigo pharmakon significa também veneno). Resiste a uma clínica científica que impõe a normalização e a marcha ao passo geral daqueles nos quais só vê desviados que impedem que (o mercado e suas leis) continue girando.

Imperceptivelmente chegamos aqui a preocupações aparentemente bem paradoxais. Como chegamos a nomear o Encontro Internacional do Campo Freudiano, desdobrado desde 2002, de um lado do Atlântico: A clínica analítica hoje: sintoma e laço social, e de outro: Clínica e Pragmática da des-inserção em psicanálise? Não tão paradoxais para quem segue o rumo das etapas que fazem escansão na elaboração do conceito de sintoma analítico até as iniciativas atuais.

Este percurso é de peso. Seu estudo é uma condição necessária e não suficiente para que saibamos assegurar que o século XXI não conte sem a psicanálise.

Muitos acreditaram que o instrumento da análise que Lacan propunha era fazer reinar a "lei do pai". Esta deriva vem a socorrer à religião. Lacan, longe de pensar que a psicanálise organiza a sociedade, faz dela, - como Freud – não o meio do exercício de um poder, senão um instrumento permanente de análise e de alívio do mal-estar que provém do fato de que é a ordem social, qualquer que seja é sempre opressiva, sempre inadequada ao que seria uma relação sem falha do humano, com a natureza e com o sexo. O seminário XVII, ao que me referi, põe em relevo o fato de que a civilização contemporânea promete sempre mais o gozo e a felicidade para o consumo dos objetos, multiplicando deste modo os efeitos de alienação e favorecendo o exercício de novas formas de poder.

Quando Lacan declara: "todo mundo delira", constata que no mundo contemporâneo é possível um laço social viável, que leve em conta as soluções pessoais ao mal-estar na civilização. Alguns artistas ilustram bem o valor criativo e a solidão deste laço, apesar do atípico das soluções que inventaram. A psicanálise, assim como eles próprios, elege trabalhar com o sintoma de cada um para que um laço social renovado seja possível. No movimento de redigir este texto recebo o anúncio da primeira noite preparatória Enapol onde intervirão Guilherme Belaga e Graciela Brodsky, em 4 de setembro: " abordaremos a clínica atual a partir das formas contemporâneas do laço social e da concepção que a orientação lacaniana tem do sintoma: como acontecimento do corpo que singulariza ao sujeito fazendo-lhe possível a adoção de uma posição ética definida". Lamento não participar nesta noite que sem dúvida me permitiria extrair outras apostas daquelas assinaladas, para contribuir a "lançar o trabalho e pôr em debate estas questões que fazem a nossa prática dentro e fora dos consultórios", e com o limite do não clínico que é o meu "ofertar a psicanálise, na época em que nos acontece viver".

 
Tradução ao espanhol: Silvia Baudini. Agradecemos a Judith Miller pela sua amável autorização, e a Hilda Vittar, diretora de Mediodicho, por facilitar-nos este texto.
Tradução ao português: Luiz Felipe Monteiro | Revisão: Marcela Antelo
 
Notas
* "Délicatesse (Delicadeza) significaria: distância e consideração, ausência de peso na relação, porém, calor vivo desta relação" Barthes R. Comment vivre ensemble, Séminaire au Collège de France, 1976-1977, Seuil Imec, p.178.
1- Miller J.-A., Le Point, juillet 2008.
2- Miller J.-A, "La psychanalyse mise à nu par son célibataire" , Cahiers de la Section Clinique de Bordeaux, 1992, p. 13.
3- Lacan J., Acte de fondation.
4- Ibid.
 
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