4º Encontro Americano - XV Encontro Internacional do Campo Freudiano
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A clínica analítica hoje | O sintoma e o laço social
2009
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Sobre o desejo de inserção e outros temas
Jacques-Alain Miller
 

Intervenções em Barcelona, 7 de novembro de 2008

I
A história do pão[1] me faz lembrar um conto de Ray Bradbury. Vicente Palomera certamente o conhece. É uma história projetada no futuro. Todo mundo calcula com computadores, com máquinas, e esqueceram-se por completo da antiga maneira de fazer pão. Num dado momento, num Ministério da Defesa dos EUA, no Pentágono ou algo assim, alguém chega e diz que se fez uma descoberta extraordinária: pode-se calcular com lápis e papel e não custa nada. É como me lembro.

É como a história do pão: há o sentimento de termos perdido um saber fundamental e antigo sacrificando-o ao automatismo, à máquina, à técnica. Isso ressoa em nós, pois não podemos desconhecer que, de certo modo, estamos estandardizando nossa maneira de fazer. Nos primeiros tempos, os analistas pareciam bruxos inquietantes que sabiam fazer. Depois, a coisa foi se ampliando até a chegada de Lacan que nos deu as chaves fundamentais. Todos os seus colegas disseram: "você não deve dizer isso ao grande público, tem de ficar entre a gente". Ele vendia a mercadoria a preço baixo, ou sem preço algum, a todos os que vinham ao seu Seminário. Depois chegamos nós para pôr ordem. No nosso tempo, no meu, no de minha geração e de outros que aqui estão, temos posto em ordem os instrumentos que Lacan nos havia dado. O que ele havia inventado pouco a pouco nós o vimos em seu conjunto, pusemos os instrumentos no lugar tal como se põe a Black & Decker, o martelo, para fazer a bricolagem no painel da parede.

Agora, estamos em outro momento histórico, momento em que passamos à estandardização em massa, e os CPCT são o seu veículo assim como do uso rápido de seus instrumentos. Devemos refletir sobre o que está acontecendo. O tema "inserção/des-inserção" foi feito para isso.

Parece-me possível decidir que o desejo de inserção é um desejo fundamental no ser falante. O ser falante deseja inserir-se. O que Lacan chamou discurso do Outro - e que imediatamente passou para a psicanálise como um esquema de comunicação, de intercâmbios de mensagens, de inversão de mensagem - diz que, nesse desejo o social é radical, é a raiz. Esse é o sentido do título de Freud "Psicologia das massas e análise do eu". Nele, Freud já diz que o social está constituído na relação analítica. E sabemos que um sujeito com um desejo de des-inserção é algo que pode chegar ao suicídio social e ao suicídio vital.

Há dois matizes da inserção que a frase de Lacan do Seminário XVII destacada por Hebe e retomada por Bassols nos faz ver[2]. É a inserção como identificação, ou seja, o sujeito se identifica com o S1 e, de certo modo, morre nessa identificação, faz-se representar por um significante rígido. É como morrer para ser representado. Vai no mesmo sentido que: "a palavra é a morte da coisa". É a identificação. Do outro lado, com a chegada de S2 há uma nova vida, é como um renascimento do sujeito, e a produção do objeto. Em minha opinião, nessa frase Lacan distingue alienação e separação.

A alienação é a identificação. Do outro lado é necessário S2, o significante do saber para fazer renascer o sujeito. E com isso desprende-se do corpo o famoso objeto a. No texto "Posição do inconsciente"[3], ao comentar a palavra separação, Lacan diz que o sujeito deseja ser "pars", ser parte, e que o desejo de ser parte, de pertencer a um todo, tem a ver com o objeto.

Constatamos na clínica o quanto ser parte, pertencer, é importante para cada um. Quando o sujeito perde sua pertinência a um grupo, a uma associação, a uma hierarquia, a um cargo no trabalho, a uma empresa, ainda que se queixe de suas condições de trabalho, essa perda acarreta regularmente efeitos patológicos, pois ela vai muito mais longe do que perder dinheiro, status ou prestigio. Ela toca em seu ser, toca no objeto a.

Nós o vemos também em outros fenômenos. Quando em Paris os jovens me descreviam o prazer que sentiam no CPCT, que é como uma família, um grupo tão confortável, posso entender o prazer, mas esse é o problema. Porque em psicanálise cada um está confrontado com sua solidão, com sua falta, sua miséria. E isso produz um apelo ao conforto grupal. É toda uma questão saber se devemos pôr em marcha aparatos de contra-solidão, de pertinência. Lacan pensava que não.

A École freudienne de Paris era um lugar que não funcionava, não tinha uma organização interna, a Assembléia Geral durava 15 minutos anuais, não se entendia nada do discurso do Secretário, não havia nenhum documento escrito e Lacan dizia: "Há perguntas?" Geralmente havia um ou dois dentre alguns sujeitos histéricos que queriam receber uma paulada na cabeça por parte de Lacan. Assim a coisa terminava e não havia lugar para queixas. Foi uma boa época para a psicanálise. Foi a época em que Lacan construía seu ensino enquanto havia muita gente trabalhando Freud. Estavam em instituições como hoje, mas considerava-se que a questão das instituições não devia ser formulada dentro da Escola. Dentro das instituições havia o regime do mestre e quando alguém vinha à Escola podia respirar outro ar. Isto era o mais importante: formar-se como analista, respirar a atmosfera do discurso analítico. Com isso era possível cuidar-se nas instituições.

Nós fizemos diferente. Os tempos são distintos. Mas, se com o pretexto de difundir a psicanálise lá fora fazemos entrar a atmosfera de fora para dentro, se nós mesmos vamos acreditar no que dizemos do lado de fora, no sentido de que somos eficazes, somos os profissionais mais excelentes, obtemos efeitos terapêuticos tão rápidos a ponto de nos espantarmos, ou seja, se começamos com um narcisismo tão transbordante, continuaremos dizendo que somos psicanalistas, mas talvez estejamos nos transformando, tal como ocorre na obra de Ionesco, O rinoceronte. Bem, isso é um perigo. E acho que deve ser considerado.

No tema da des-inserção, é preciso pensar o tema do lugar, la place, o local. Lacan começa sua conferência sobre seu ensino com o conceito de local, estende-se deste ao conceito de espaço, um espaço métrico. O local de cada um em relação ao local dos demais é muito importante. Sabemos dos transtornos produzidos por uma mudança espacial dos outros em relação ao sujeito, ou seja, quando ele vê pessoas de sua própria geração avançarem mais rápido numa hierarquia. Tudo isso é do cotidiano, mas tem um sentido fundamental.

No tema da des-inserção para o Encontro de Barcelona, em julho, é preciso considerar o tema da des-inserção do analista, a saber: em que medida o analista deve inserir-se ou des-inserir-se do discurso do Outro e em que sentido? A posição de Lacan nunca foi favorável à ilusão de extraterritorialidade, mas eventualmente ele falava da Escola como de uma base de operações contra o mal-estar da cultura, isto é, na contracorrente dos valores predominantes. Então, como manter essa posição sem sermos esmagados? Devemos elaborar uma postura, já que a pressão social para com a psicanálise é muito mais forte agora do que antes.

Antes, os políticos não se preocupavam com a psicanálise e sim com sua família ou com seus próprios transtornos pessoais, mas não com a psicanálise como problema político. Agora, o psi é um problema político, administrativo e social. Estamos numa situação histórica inédita, o que torna mais difícil pensar em nossa posição. De certo modo, estamos exilados desde o interior e condenados a uma certa astúcia com os poderes.

Eles se chamam ou propõem que os chamemos "parceiros". E nós os consideramos agentes do discurso do mestre, mas não podemos chamá-los assim quando discutimos com eles. Entre nós, porém, é muito importante lembrá-lo. Acontece de modo muito rápido passar da difusão da psicanálise no lado de fora ao fato de abrir as portas de nossas bases de operações para fazer entrar os agentes do discurso do mestre. E, em minha opinião, quando isso se produz, não é bom. São contatos para fora, não cabe trazê-los para dentro. A questão é como elaborar a extimidade analítica na sociedade contemporânea. Creio não ser impossível elaborá-lo, há alguns critérios que permitem dizer: isto dá e isto não dá. Acho que deve ser uma elaboração provocada e com muitas contribuições.

A solução não está nos livros, não há uma fórmula em Freud ou em Lacan porque esse não foi um problema da época deles. É um problema do nosso tempo, é recente. Não era um problema em 1980, é um problema em 2008. É apaixonante e precisa da valentia da qual Mercedes Francisco deu testemunho. Devemos fazer algo como tomar posição firme em nossos debates, não deixar as coisas debaixo da mesa.

Estamos no início do século e também dessa questão. A questão sociopolítica não é tão antiga para nós, é algo deste século. Quando ele começou, houve na Europa um giro quanto ao desejo de regularizar o título de psicoterapeuta, isso é recente. Estamos no início de uma longa trajetória e há liberdade entre nós para discutir com firmeza, de modo a obtermos uma Aufhebung de nossa posição.

Em minha opinião, é disso que se tratará em Pipol 4: da psicanálise aplicada, mas da psicanálise aplicada à própria psicanálise.

II
Vou dizer, francamente, o que me parece necessário para um debate produtivo.

Minha intervenção é responsável por certo efeito depressivo. Eu o assumo de bom grado. É que percebi haver uma "CPCT-mania" no Campo Freudiano. É como se todo o Campo Freudiano fosse ser reconfigurado a partir do conceito, da ideologia e da prática do CPCT. Essa descoberta foi espantosa para mim, confesso. Não havia percebido, ou talvez tenha percebido algumas coisas, mas não queria saber delas, até o ponto de produzir alguns esquecimentos sintomáticos. A análise deles, disse que iria compartilhar, mas não posso fazê-lo agora, não seria agradável para os outros.

Creio, assumo, que se eu não tivesse intervindo nas últimas Jornadas da École de la Cause, o que fiz por uma cadeia de efeitos contingentes, se eu não tivesse começado as Entrevistas do momento atual e se não tivesse vindo a Barcelona, a coisa teria sido muito diferente, a CPCT-mania teria continuado. Não devemos ficar na "CPCT-depressão", mas abandonar a "CPCT-mania" para salvar o melhor da experiência.

Minha idéia, meu desejo de CPCT, tal como eu o nomeei, poeticamente, C.P.C.T., era de uma experiência limitada porque perigosa, era uma experiência com um veneno. Eu a havia concebido como uma ingestão de veneno em doses homeopáticas. E gostaram tanto desse veneno que agora são garrafas e mais garrafas que se bebem em todo o Campo Freudiano, no mundo todo. É um veneno excelente, um veneno de primeira!

A experiência CPCT prossegue há cinco ou seis anos em Paris, há quatro anos em Barcelona, há dois anos em outros lugares. O que é isso quando comparado com o século XXI? São os primeiros passos do bebê, estamos preparando o futuro. Trata-se de uma experiência ocorrendo em todos os lugares. É mais ampla. Se a tivéssemos levado a cabo em pequena escala, teríamos podido perceber alguns perigos, elaborar respostas. Mas isso seria o ideal e não foi assim que se realizou, seguramente por razões fundamentais. Era como um esboço de reconciliação do discurso analítico com a sociedade, com o discurso do mestre. O resultado foi fulgurante. Pode-se dizer que esse transbordamento faz parte da experiência. É uma experiência que devia transbordar a si mesma.

Borderías referiu-se, com razão, ao que disse Lacan em "A direção do tratamento..."[4]: "...com a oferta, criei a demanda". Bom, mas o que há depois? O psicanalista com sua oferta cria a demanda do sujeito, mas não responde à demanda que criou. Toda a questão é não responder à demanda criada, à demanda do Outro social. Considero simplesmente que se o analista não responde à demanda do sujeito, tampouco responderá à demanda do Outro social. Deverá responder a essa demanda enviesadamente. Responder à demanda do Outro social produz os CPCT tal como os vemos crescer e sem limites. Atualmente são os membros e os que estão em formação na Escola que trabalham nos CPCT. Mas, em breve, deveremos formar rapidamente pessoas para trabalhar nos CPCT a fim de responder à demanda que cresce. Esta é a lógica.

Parece-me mais razoável repelir a demanda do Outro social, ou interpretá-la, mas não respondê-la diretamente. Caso contrário, não é psicanálise aplicada à terapêutica é assistência social de orientação lacaniana. E como isso não existe, será assistência social de pretensão lacaniana.

Em minha opinião é urgente não haver mais crescimento, pará-lo, pois ele é totalmente oral. Não sei se é questão de devorar o Outro ou se é o Outro a nos devorar. Parece-me a mesma coisa: estamos devorando o que ele dá, buscamos subvenções do seio do Outro e, por nossa vez, somos devorados por ele, tal como descreveu Esthela Solano em um momento da conferência institucional da École de la Cause freudienne. Ela esteve implicada nessa experiência desde o começo e disse que algo no CPCT de Paris nos transborda e nos devora. Esse tempo ainda não chegou na Espanha, mas todos os sinais apontam estarmos seguindo nessa direção caso não haja um momento de reflexão.

O que estou dizendo nada tem de final, estou aberto porque não conheço suficientemente a situação em detalhes. Espero conhecê-la com os números. Já me equivoquei no passado, possivelmente equivoco-me agora sobre alguns pontos e me equivocarei no futuro. Não tenho um orgulho que me impeça de dizê-lo. Quero uma discussão, mas não posso esconder o sentimento de urgência que me anima.

Essa foi não apenas uma experiência sobre o social, mas também sobre o desejo do analista, ou seja, sobre se o desejo do analista é suficientemente forte em nós para perceber que há coisas que não se fazem em uma Escola de psicanálise, nem mesmo em seus arredores. Considero que o desejo do analista tem uma certa debilidade dentro de nós.

Não posso suportar essa linguagem de "parceiros" entre nós. Depois de anos do ensino de Lacan, com o que ele nos disse sobre o discurso do mestre, estamos com as prefeituras, com os conselhos regionais, com os ministros e dizemos "obrigado" o tempo todo. Devemos nos defender, isto é uma coisa. Mas instalar, agora, entre nós, o discurso do mestre, depois de tantos anos... é algo que não entendo e que vocês me ajudarão a entender.

Talvez seja um fenômeno de geração: sou de uma antiga geração que foi esquerdista e agora o mundo é pensado de outra maneira. Estou disposto a pensá-lo, a aceitá-lo. Mas o problema aí está.

Discussão

Hilario Cid: A intervenção de Jacques-Alain Miller me parece completamente pertinente, mas de fato é algo que - talvez não tenhamos podido expressar com suficiente clareza - já vimos tratando e tentando ver aqui na Espanha. Por isso eu falava que tanto Elvira quanto Manuel Fernández Blanco e Xavier Esqué a primeira coisa que me disseram quando se abriu o CPCT-Malaga foi: "cuidado com o êxito, é preciso parar uma demanda feroz, é preciso pará-la" e de fato tem sido nosso objetivo nesse momento. Eles que já tinham uma experiência de uns dois anos, foi a primeira coisa que nos disseram e essa tem sido nossa máxima no CPCT de Málaga, porque víamos que nos transbordava.

Elvira Guilañá: Na experiência inicial do CPCT-Barcelona, sabia-se que política se queria seguir e era a de que o CPCT se centrasse na questão do que seria um laboratório clínico, um lugar onde se pudesse investigar, colaborar com a formação dos jovens e formalizar o que aprendemos da clínica. O texto que Jacques-Alain Miller citava de Lacan, de "o que a psicanálise ensina como ensiná-lo" e sobre os lugares, é um dos temas que escolhi para a apresentação do CPCT para o Pipol 3 e que fomos trabalhando. Como transmitir ao Outro da Escola e ao Outro do social a experiência clínica do CPCT? Sempre destacamos estes dois pontos. Quando se escuta o Outro da Escola, ele nos põe a trabalhar para transmitir esta formalização. Como construir uma base psicanalítica de sintomas? Como colabora o CPCT na formação dos jovens? O problema não era, nem creio que se tenha situado nunca, na questão do crescimento, pelo contrário, temos sido muito prudentes. Com as permutações no CPCT-Barcelona renovamos anualmente nosso pacto de trabalho em todos os CPCT da rede da ELP. A cada ano alguém pode dizer "tenho desejo, interesse em outra questão". De fato, há colegas que colocaram assim e outros foram entrando. A proporção da equipe é uma proporção de equipe limitada e cada ano se vão um ou dois colegas que querem orientar-se em outras questões e entram um ou dois...

Jacques-Alain Miller: em quarenta... é uma permutação muito limitada.

Elvira Guilañá : Sim, em quarenta. O único crescimento importante é a incorporação dos participantes do I Estágio. Ao serem incorporados os estágios, sempre há um crescimento que teremos que ter em conta. É um ponto, o de crescimento, tal como o senhor destacou que é importante levar em conta, que é preciso levar em conta e elaborá-lo.

Xavier Esqué: Sim, me parece muito importante e nos cai muito bem poder parar para refletir até onde vão os CPCT. Há que fazer um pouco de história, ao menos aqui na Espanha e é que os CPCT, já de entrada, tiveram uma articulação, um acordo importante com o discurso do mestre a partir do acordo que houve com o Ministério e a Secretaria de Assuntos Sociais. Parece-me que não se trata neste momento, de tratar de ver os prós e os contras, mas que é uma experiência que pusemos em marcha, que apostamos fortemente nela e que agora, a partir do questionamento, podemos encontrar uma resposta que não estava no início quando nos pusemos em marcha. Mas isto cabe muito bem, diria que aqui não estamos em um ponto de mania. Ela começava, sim, mas que é uma mania que segundo entendo, tem a ver com a lógica interna deste aparato que leva em direção à mania, que leva ao crescimento. Há algo que, mais além de cada CPCT, leva até aí e então, sim, é o momento de parar, analisar e ver como resolver este tema da busca das subvenções.

Jacques-Alain Miller: Parece que não se levou em conta um fato essencial. Fazemos gratuito e depois dizemos "maravilha, todo mundo vem!". Fazemos gratuito, quer dizer que era uma coisa que era preciso fazer em pouca quantidade. Que seja gratuito quer dizer que é caridade ou bondade de nossa parte? É algo admirável que depois venha a multidão comer a sopa popular da psicanálise?

Ontem recebi uma mensagem pessoal e pedi à pessoa autorização para colocá-la em minhas Entrevistas do momento atual. Um colega membro de uma ACF disse que o essencial de toda esta questão é a falta - falta de dinheiro, falta de lugar de escuta. Primeiro ponto: o princípio de tudo isto é a miséria. Segundo: todos os atores do sistema mentem, o psicanalista também quando diz ao sujeito que não tem que pagar nada para aceder à verdade de seu sintoma. É uma mentira, ele diz, e diz que com esta mentira mantemos os sujeitos na miséria. Li ontem às oito da noite e me tocou porque vai mais além que eu mesmo na leitura analítica do que fazemos. Disse que a caça das subvenções é o acting out desta gratuidade, é o mais-de-gozar. Não entendo totalmente seu argumento, mas sinto que captou algo, que fez uma leitura analítica destes fenômenos raros da experiência de massa.

Pensava que era possível como experiência reduzida. Vi imediatamente, no primeiro dia, que o CPCT-Chabrol fazia uma chamada muito mais ampla. Deixei-o ir. Penso agora que estava condenado a este crescimento. No próprio princípio da máquina não existia uma fronteira. Penso que com a gratuidade devíamos colocar uma barreira. Usualmente é o dinheiro que põe essa barreira, mas com a gratuidade não há limite.

Necessariamente vai se bater totalmente contra o muro e não sou eu que está aí para parar a coisa. É algo que terminaria no muro, como terminaram outras experiências de crescimento excessivo. E creio que houve esta experiência em Barcelona, se alguém se recorda. Para mim, a partir deste texto, a gratuidade está também em questão.

Andres Borderias: Preparando minha intervenção de hoje, se tivesse que introduzir uma pergunta, uma questão fundamental do debate para mim é a de se há possibilidade de uma dialética com o discurso do mestre. E são as condições de limitação que tornam possível crer que há uma política do sintoma que nos permita manter uma certa dialética. Porque se esta é a questão então se trata de definir as questões de limitação em seu justo termo, o crescimento da equipe, o número de pacientes que se atende. A limitação, se não é pela via do dinheiro, será pela via do tempo que se atende, pela definição do ciclo, pela definição dos efeitos obtidos. Parece-me que há uma possibilidade de manter esta experiência se respeitamos as condições de limitação, quais subvenções aceitamos e quais rechaçamos, o tipo de interlocutores que queremos encontrar e os que não, e manter uma avaliação permanente sobre este ponto.

Hebe Tizio: Celebro a possibilidade desta discussão porque estava me lembrando do que havia previamente à criação do CPCT e era justamente uma discussão sobre como gerar transferências. Havia pensado algo em relação ao CPCT como uma forma justamente de não responder ao discurso do mestre, mas de criar transferências. Quer dizer, que tipo de gente podia, por esta via, entrar em análise? Creio que o que a experiência demonstra é que isto não acontece, por isso me parece que o tema da discussão centrado no CPCT tem toda sua importância se o remetemos ao tema da formação do analista e a algo que acaba de dizer Miller, que é realmente sobre o desejo do analista. Porque se originalmente nossa preocupação era como gerar transferências para assegurar a troca de gerações e o futuro da psicanálise, me parece que a questão do CPCT, em todo caso, tem uma evidência sintomática. A discussão de fundo tem a ver com este ponto, com a formação dos analistas e o desejo do analista, que é um tema do qual deixamos de falar. Tivemos como um tipo de invasão da psicanálise aplicada e estas questões ficaram de lado. Creio que se retomamos verdadeiramente estas questões de fundo, automaticamente se ressituará o CPCT.

Laura Canedo: Devo dizer que quando leio "psicanálise aplicada à terapêutica" não me parece muito cômodo. Tenho sentido de que não se trata de psicanálise aplicada à terapêutica, mas que se trata muito mais - já que tem a ver com a Escola-, da formação do analista e enquanto tal, da aplicação da psicanálise pura à clínica. E tenho a sensação de que quando estamos com toda a questão da terapêutica, estamos com esta questão da demanda do Outro social e que é preciso voltar um pouco, para a questão mais da clínica... Tenho a sensação que às vezes nos Grupos de Investigação, os trabalhos levam a uma leitura a partir da terapêutica e não me parece interessante.

Pilar Gonzalez: Quero retomar o que me parece muito interessante, o que disse Jacques-Alain sobre o desejo do analista. Um jovem com fracasso escolar me disse que odiava os mestres porque eles querem nos ordenar para nos incluirmos em um mundo profundamente desordenado. Penso que a demanda do Outro social é justamente que nos insiramos em meio aos desinseridos. Parece que o semblante que neste momento tem o CPCT é um semblante do Outro do amor, da caridade e de um certo modo do engano. Para o Outro social que faz esta demanda de que insiramos os desinseridos, talvez o risco seja de que nos coloquem no lugar da religião, algo que cumpre uma função de inserir estes desinseridos por essa via. Na realidade, o que disse Bassols de des-inserir o sujeito de sua forma de gozo para conectá-lo ao Outro do discurso é, evidentemente, nosso objetivo. Todos sabemos em uma análise o percurso que leva isso e, portanto, tal como se coloca no CPCT, talvez tenhamos que ser muito humildes no que podemos conseguir, mas toda esta discussão me leva à pergunta sobre o que poderíamos trocar para nos orientarmos pelo desejo do analista, porque penso que tal como nos apresentamos e tal como o Outro social recebe nossa resposta, há bastante dificuldade.

Jacques-Alain Miller: Estou esperando as cifras na França. Agora tenho cifras de julho de 2004 e julho de 2008, é uma multiplicação por três ou quatro vezes mais. Ia-se terminar por constatar que não tínhamos suficientes trabalhadores no CPCT e que devíamos formar agora, rapidamente, gente que pudessem trabalhar no CPCT porque tínhamos os meios para fazê-lo. Me fez pensar na construção das pirâmides, como no filme de Cecil B de Mille, "Os dez mandamentos".

E trabalha-se sobre o quê? Sobre temas decididos pelo governo. Agora os governos se interessam pela obesidade. Quais são os projetos? Criar um CPCT-obesidade na França. Estamos a seguir os passos do discurso do mestre, dizemos aos poderes instituídos que temos gente para isso. E agora se cria um Grupo de Investigação na Escola sobre a obesidade.

Em que momento nossa obesidade vai nos convencer a fazer um tratamento? O interessante - não terminei de entender - é a dominação da pulsão oral nesta questão do CPCT. Talvez seja preciso passar do período histérico do CPCT a um período obsessivo. Um pouco de pulsão anal, talvez. Talvez fosse necessária uma dialética entre a pulsão oral e a pulsão anal.

 
Transcrição: Elvira Guilañá. | Estabelecimento do texto: Miquel Bassols
Tradução para o português: I e II - Vera Ribeiro | Discussão - Maria Cristina Maia Fernandes | Revisão: Marcus André Vieira
 
Notas
1- Referência a uma intervenção prévia de Mercedes de Francisco: "Como dizia Richard Sennett em La Corrosión del Carácter, já não encontramos os padeiros gregos que sabiam fazer o pão, mas apenas os que sabem apertar o botão da máquina que faz pão. Em qualquer desses âmbitos, os sujeitos se vêem degradados em sua relação com o saber e com sua tarefa."
2- A frase citada e comentada está no Seminário XVII, Ed. Paidos, p. 97: "No discurso do mestre o sujeito se encontra vinculado com todas as ilusões que isso comporta, com significante mestre, ao passo que a inserção no gozo se deve ao saber".
3- Lacan, J. – "Posição do inconsciente", em Escritos, Rio de Janeiro, J. Zahar Ed, p. 857, 1964.
4- Lacan, J. – "A direção do tratamento e os princípios de seu poder", em Escritos, Rio de Janeiro, J. Zahar Ed., p. 623 , 1998.
 
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